quarta-feira, maio 28, 2008

hola!


em espanha tudo é excessivo.
a paisagem.
o calor.
as touradas.
a dimensão geográfica.
os 40 milhões de pessoas.
as suas 50 províncias.
as 17 comunidades autónomas.
3 delas com autonomia e língua própria (catalão, galego e basco).
os arquipélagos das canárias e baleares.
as cidades autónomas de ceuta e melilla.
e ainda o enclave de llívia.
o seu prestígio cultural reflecte-se nos prémios goya
ou no festival de cinema de san sebastian.
o prestígio religioso do roçio ou santiago de compostela
arrastam multidões.
assim como milhões e milhões são mobilizados nas ruas
em defesa das mais variadas causas.
há uma consciência e participação cívica inexistente em portugal.

no princípio do ano estive em madrid
e andei com um cartaz q me deram p as mãos
a protestar contra a eta e as suas negociações
com o governo espanhol.
estiveram na rua (apesar de haver sempre várias fontes
- organização, jornais e polícia) cerca de 1,5 milhão de pessoas.
as tardes caem e as ruas enchem-se por todo o lado.
os museus abrem e encerram cheios de gente.

a forma como falam.
a forma como riem.
a forma como as espanholas se arranjam.
a forma como fazem ganzas na rua.
a forma como a noite começa cedo.
a forma como as noites acabam tarde.
a forma como desde 1975 (queda de franco),
1986 (adesão à comunidade europeia),
1992 (madrid foi capital europeia da cultura, sevilha acolheu a expo92
e barcelona foi anfitriã dos jogos olímpicos)
espanha descolou do todos os seus vizinhos
e neste século está-se a tornar uma das maiores
potências económicas mundiais,
envergonhando política/económica e socialmente
muitos dos seus parceiros da união europeia.
a forma como o país se une à volta de um líder.
a visão que esse líder tem para o seu país.

e citando o rei juan carlos no seu discurso,
aquando da adesão à cee em 1986
"espanha é a minha pátria, portugal é o meu país."

sexta-feira, maio 23, 2008

o requinte



estou farto. é definitivo. foi neste último fim de semana. tomei consciência de que me fartei de um certo número de coisas. acho que é finalmente a idade a começar a fazer das suas. a dita maturidade. cansei-me de ser quase sempre eu a programar a vida social do meu grupo de amigos. a partir de agora não mexo nem mais um corno.

uma das minhas melhores amigas não chegou a conhecer as minhas últimas 3 casas. eu é que ia sempre à dela. outra, cada vez que lhe pergunto se quer jantar fora ou em casa diz que tem já 15 coisas para fazer mas agradece que a continue a convidar. outro queixa-se sempre que não é convidado para jantar nenhum, mas quando é nunca pode porque tem sempre alguma merda para fazer. outros nunca marcam nada, resolvem à última hora e, ou fazem jantares em casa a servirem batata frita pála pála e carne de porco em fatias, ou arrastam-se penosamente pelos restaurantes nocturnos à espera de uma mesa qualquer.

depois há aqueles que não são íntimos mas cada vez que nos encontramos dizem que temos que ir jantar (é em aberto, deixam a data em suspenso) e, porque há muita saudade. só destes lembro-me duns 7 ou 8.

já não se recebe em casa. já não se convida para jantar, já não há o hábito de se beberem cocktails na sala, já não se fazem lanches, com limonada, geleias e pão de forma aparado, já não se oferece vinho (aos homens) e flores (às senhoras) quando se é convidado para jantar em casa de alguém, já não se abre a porta para as pessoas passarem, já não se põe a mão à frente quando se boceja, já ninguém se inibe de espetar o dedo mindinho no tímpano e agitá-lo vigorosamente, já muita gente manda o fumo do cigarro para a mesa ao lado, quase ninguém se veste para sair à noite, quase nenhuma mulher calça bem, muito poucos cuidam dos cabelos, e da pele, e dos pés, e dos calos, e das unhas.

será que os meus amigos estão a perder o requinte? será que nunca o tiveram? será que o dinheiro compra requinte? não me parece.

que a palavra requinte se tenha desgastado totalmente com o passar do tempo já se sabe, pois quase só é utilizada como assinatura duma antiga marca de chocolates.

sempre tive o hábito de pelo menos de 15 em 15 dias fazer um jantar, com todo o ritual que a isso obrigava, que ia da escolha da ementa, a compra dos ingredientes e a sua confecção, compra de flores, decoração da mesa, até ao filme que criteriosamente era posto a passar na televisão, sem som. quase sempre o joan of arc do dreyer, embora por vezes fosse o alexandre nevski e o trash. escolhia o lugar das pessoas à mesa e pensava em todas as possibilidades de pedidos que os meus convidados podiam fazer. nada podia falhar.
o vinho era sempre calculado 1 garrafa por pessoa para não haver misturas de marcas. tinha sempre no bar whisky novo, velho e bourbon, gin, vodka, martini, campari, porto, cachaça, água tónica, com gás, lisa, coca cola e light, limão e limas. e o congelador sempre a abarrotar de gelo.

fui educado pelos meus pais com todos aqueles valores que me fizeram crescer de uma forma segura e saudável, embora me lembre de alguma disciplina na minha infância e da mesa de jantar onde era obrigado a permanecer silenciosamente sentado até os adultos se levantarem. nunca se brincava a seguir à janta e a hora de deitar era sagrada. lembro-me também de me contarem desde sempre q qd a minha avó ia visitar as irmãs levava a sua bengala, a empregada (na altura chamava-se criada) e uma cadeira, que era colocada em cada lance de escada para a senhora descansar, até atingir o seu destino (lá para o 4º ou 5º andar). sempre soube utilizar todos os talheres duma mesa, não falar quando outros falam, respeitando sempre o espaço de quem estivesse ao meu lado. cresci assim.

para muitos é boa educação, para mim, ainda é requinte.