o requinte

estou farto. é definitivo. foi neste último fim de semana. tomei consciência de que me fartei de um certo número de coisas. acho que é finalmente a idade a começar a fazer das suas. a dita maturidade. cansei-me de ser quase sempre eu a programar a vida social do meu grupo de amigos. a partir de agora não mexo nem mais um corno.
uma das minhas melhores amigas não chegou a conhecer as minhas últimas 3 casas. eu é que ia sempre à dela. outra, cada vez que lhe pergunto se quer jantar fora ou em casa diz que tem já 15 coisas para fazer mas agradece que a continue a convidar. outro queixa-se sempre que não é convidado para jantar nenhum, mas quando é nunca pode porque tem sempre alguma merda para fazer. outros nunca marcam nada, resolvem à última hora e, ou fazem jantares em casa a servirem batata frita pála pála e carne de porco em fatias, ou arrastam-se penosamente pelos restaurantes nocturnos à espera de uma mesa qualquer.
depois há aqueles que não são íntimos mas cada vez que nos encontramos dizem que temos que ir jantar (é em aberto, deixam a data em suspenso) e, porque há muita saudade. só destes lembro-me duns 7 ou 8.
já não se recebe em casa. já não se convida para jantar, já não há o hábito de se beberem cocktails na sala, já não se fazem lanches, com limonada, geleias e pão de forma aparado, já não se oferece vinho (aos homens) e flores (às senhoras) quando se é convidado para jantar em casa de alguém, já não se abre a porta para as pessoas passarem, já não se põe a mão à frente quando se boceja, já ninguém se inibe de espetar o dedo mindinho no tímpano e agitá-lo vigorosamente, já muita gente manda o fumo do cigarro para a mesa ao lado, quase ninguém se veste para sair à noite, quase nenhuma mulher calça bem, muito poucos cuidam dos cabelos, e da pele, e dos pés, e dos calos, e das unhas.
será que os meus amigos estão a perder o requinte? será que nunca o tiveram? será que o dinheiro compra requinte? não me parece.
que a palavra requinte se tenha desgastado totalmente com o passar do tempo já se sabe, pois quase só é utilizada como assinatura duma antiga marca de chocolates.
sempre tive o hábito de pelo menos de 15 em 15 dias fazer um jantar, com todo o ritual que a isso obrigava, que ia da escolha da ementa, a compra dos ingredientes e a sua confecção, compra de flores, decoração da mesa, até ao filme que criteriosamente era posto a passar na televisão, sem som. quase sempre o joan of arc do dreyer, embora por vezes fosse o alexandre nevski e o trash. escolhia o lugar das pessoas à mesa e pensava em todas as possibilidades de pedidos que os meus convidados podiam fazer. nada podia falhar.
o vinho era sempre calculado 1 garrafa por pessoa para não haver misturas de marcas. tinha sempre no bar whisky novo, velho e bourbon, gin, vodka, martini, campari, porto, cachaça, água tónica, com gás, lisa, coca cola e light, limão e limas. e o congelador sempre a abarrotar de gelo.
fui educado pelos meus pais com todos aqueles valores que me fizeram crescer de uma forma segura e saudável, embora me lembre de alguma disciplina na minha infância e da mesa de jantar onde era obrigado a permanecer silenciosamente sentado até os adultos se levantarem. nunca se brincava a seguir à janta e a hora de deitar era sagrada. lembro-me também de me contarem desde sempre q qd a minha avó ia visitar as irmãs levava a sua bengala, a empregada (na altura chamava-se criada) e uma cadeira, que era colocada em cada lance de escada para a senhora descansar, até atingir o seu destino (lá para o 4º ou 5º andar). sempre soube utilizar todos os talheres duma mesa, não falar quando outros falam, respeitando sempre o espaço de quem estivesse ao meu lado. cresci assim.
para muitos é boa educação, para mim, ainda é requinte.


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